abril 12, 2011

Quem sou eu?

Quem sou eu, eu sou quem?
O universo me transpassa,
e eu aqui estou sem raça,
sem cor, credo, tão sem.

Quem sou eu, eu sou quem?
Pareço-me com cada um,
entretanto não sou nenhum,
não sou, não sou ninguém.

Quem sou eu, eu quem sou?
Um joão ninguém, um josé?
O divino, o belo, o cifé?

Quem sou eu, quem estou?
Serei aquilo que chamam fé?
Não sou, apenas não sou.

março 19, 2011

As cores

A alvorada restaurou-se, enfim,
na calada doentia e indistinta.
Via tudo, e em tudo havia tinta.
Via cores, que só não haviam em mim.

Sentia-me desbotado, e incolor.
Um passageiro sem passagem,
vagando entre a paisagem
que revelava tudo, só não cor.

Desbotei-me. E o mundo passou.
Quais cores haveria de pintar,
se de tintas era eu desconhecido?

O mundo de tintas me impressionou.
O mundo passou e parecia desbotar?
Ou passei eu no mundo despercebido?

junho 03, 2010

Esqueci.

Percorro o céu, o mar profundo.
Aqueço-me entre as estrelas!
Suporto minha dor de vê-las
sorrir na noite em que afundo.

Um sopro gélido o espaço anseia.
Canto solitário o que nem sei;
Está vivo? Sou vivo? Viverei?
Ah! tolice imaginar! Vagueia.

O reflexo me confundi a mente,
Que em perigrinação não é sã.
Mente que mente, pensa, sente.

Que esquece que o esquecimento,
que perece nessa aldeia cortesã,
é tudo que há, exceto sentimento.

maio 12, 2010

O mundo como inverno!

Eis que aqui há engenho,
arte, pudor e tolerância;
Há até singela elegância,
na pintura e no desenho.

Uma espécie de legião,
cuja fronteira é vasta,
da qual a tudo arrasta,
para dentro da predição.

Um bosque vasto e sombrio,
belo e mal-acabado;
Um acorde para o fado,

que resvala no vento frio.
Um vento frio, imaginado...
Que ouvem, mas ninguém viu.

abril 27, 2010

Sem sentido!

Era só pensar, pra pensar,
deixar-se no tempo diminuto,
caindo num canto do estar
entre o caos e o absoluto.

Sentia-se, pois, acalentado,
n'uns braços de fulgores
e de sublimidade atado
para tudo, para açores.

Quanto mais em si perdido,
mais no mundo ia caido!
Era só pensar, e destoar.

Deixar-se de tudo acontecer,
que se aparentava crescer,
como uma daninha a germinar.

março 19, 2010

Resquícios

Quem quis viver de saudades,
Abarcado no som lúdico da razão,
Viveu apenas de eternidades,
Sem segundos, sem paz, sem paixão.

Vivera como que não vivendo;
Correndo prados de glórias vis;
Enquanto se ia triste perdendo
Nos devastados sonhos sutis.

Não percebera ser mais um, apenas,
Se ludibriando com as estações,
Que iam e vinham, a duras penas.

Apenas mais um no reino de truões,
Que de saudades vive se esquecendo,
Que só ganha quando está perdendo.

fevereiro 26, 2010

O Pescador

Na beira-mar há um estranho ser,
De tudo vazio, porém compenetrado
pescando a vida muito arraigado
a valores muitos, sem nada fazer.

Buscando o todo e o completo nada,
olhando o horizonte espesso,
e perdendo-se no singelo apreço
que lhe vem da solidão calada.

Ali, nesse universo de colisão,
onde se constrói a passividade,
encontra o pescador de solidão,

a pura essência da abstracidade,
no tudo, no nada, na ilusão
do que crê ser a única realidade.

Solilóquio abstrato do si para consigo!

Não há carne ao teu pranto,
Nem desespero a teu olhar,
Que se me afigure espanto
Aos laços teus do enganar.

Sentimentos loucos, ufanos.
Trajados de fome e rejeição
Do que jamais te fora danos
Do que jamais te fora paixão.

Sonho, eis que ilusão isenta,
Daquele que mata e não come
A saudade perdida e sedenta!

Direi-te que o que consome:
É pão amargo que alimenta,
porém não que mata a fome.

janeiro 17, 2010

A busca

De tudo no mundo fui buscar,
da brandura quente do verão,
a ternura que há na imensidão,
para a ti, meu amor, comparar.

No canto sutil do bem-te-vi,
que soa breve à natureza,
em toda a sua estranheza,
a tua voz lúdica percebi.

Corri ao extremo oriente,
e o nascer do sol aguardei,
pois foi lá que espreitei
teu riso resplandecente.

No chão da Tailândia achei,
o rubi de mais bela cor,
e foi nele, com muito ardor,
que teus lábios lapidei.

Não pude, porém, encontrar,
quer no tudo, quer no nada,
a beleza que há aprisionada,
no teu, amor, castanho olhar.

dezembro 30, 2009

A estação

Vejo o assento vazio da estação,
E o silêncio reverberando dos cantos!
Em todos os olhos vejo tímidos prantos,
Em todas as faces vejo só lamentação.

Passam-se vagões, vários e tantos...
Ouço o ferro em brasa fervilhar,
Sinto o vento quente a brilhar...
Vejo os altares, mas não os santos.

Sento-me, e sinto perder a esperança!
Vão-se vagões, e outros estão a chegar.
Fico olhando aquela pobre e meiga dança,

Dos vagões que vão e deixam-se ficar,
Porém nenhum deles se me alcança...
Por que não vejo ninguém desembarcar.

novembro 27, 2009

Ninguém

Quando de amor perdi o alento,
e vaguei o fado sem caução,
desencontrei-me até da ilusão
de fazer-me, enfim, em portento.

Porém, ouvi triste o pranto,
que em fogo nos olhos se fazia;
Recordei-me o amor que jazia
enterrado na letra do acalanto.

Enquanto o ardor bravo crescia,
aos poucos, leve e tanto
desencantei-me até do acalanto,

e deixei-me à triste fantasia:
De viver contente - em pranto,
sem amar ninguém, e ninguém portanto.

novembro 22, 2009

Razão

Engenho meu traidor tornou-se,
e sucumbiu ao mal do amor!
Fez-se das sensações amador,
enquanto do amor razão logrou-se.

Mal maior a emoção não trouxe,
senão esta de queimar-me em mil,
bramindo o coração - já ardil -,
em negar-se razão, que negou-se.

Razão de encanto tardia e vil,
emoções de coração cadente;
Eis que o amor jamais sucumbiu

aos desenganos da razão prudente,
e quanto mais razão se ouviu,
mais emoção se teve por confidente.

novembro 18, 2009

Ilusão

Ah! como amei-na no aguaceiro,
deixando ser - feliz e então -
cada gotícula na precipitação
para gozá-la só e por inteiro.

Ah! como era bom amá-la, senão
nas suas entranhas, seu cheiro.
Senti-la, num ardor verdadeiro,
deixar-se amar, a cada paixão.

Amei-na somente e desatento;
qui-la como a luz ao lampião,
de tal modo, e a contento,

que vaguei-me, sem precaução,
e tive-na - por um momento -
em meu doce sonho de ilusão.

outubro 19, 2009

eu?

Queres saber quem eu sou?
Eu sou um destemido trovão
ecoando na turva imensidão,
que ninguém viu, ninguém notou.

Sou a ira nascida da cinza;
O pó de vento, a ventania...
Aquele a qual ninguém via
deslizar no dia ranzinza.

Sou escravo do casto engano,
a terra em sua vasta camada;
Aquele que vê em todo plano;

E, apesar de aparentar vessada,
sou pântano no universo de pano;
Onde tudo é renda, e sou eu nada.

setembro 22, 2009

O tolo

Julgo por tolo, nessa esteira,
aquele que lhe fez deixar.
Senão isso, hei-de acreditar,
que a morte lhe fez solteira.

Pois no mundo não há disparate,
que maior se faça em dimensão,
a este do mais infeliz truão
que resolveu abandonar-te.

Hei pensando nas coisas mundo,
nas ondas belicosas do mar,
e neste belo olhar teu profundo.

Só não me calha, inda, imaginar,
a má-sorte do triste moribundo
Que deixou-te um dia escapar.